O passado mostra que Lula corre perigo. Ou não, por Gustavo Tapioca
O TSE abriu a passarela, mas avisou: “Se entrarem na avenida, entrem por sua conta e risco”.
O caso do desfile da Acadêmicos de Niterói é um retrato colorido do Brasil real. Um país onde a esquerda precisa pedir licença até para ser homenageada, enquanto a direita desfila com seu arsenal de mentiras deslavadas e fake news bem elaboradas sem ser incomodada.
O TSE autorizou o desfile, mas não sem antes deixar claro que estava abrindo a porta com uma mão e apontando o extintor de incêndio com a outra. A presidente da Corte, Cármen Lúcia, acompanhada por André Mendonça e Kássio Nunes, votou contra a censura prévia — mas lançou a frase que deveria ter soado como alarme barulhento de perigo à vista:
“A areia que o desfile vai pisar não é areia de praia. É areia movediça. E eles sabem disso.”
Sabem? Sabiam?
Ou acharam que o TSE ia virar ala da bateria dos Acadêmicos de Niterói?
Porque sejamos honestos. Lula poderia — e deveria — ter sido advertido com firmeza por seus aliados.
Não faltou quem percebesse que o enredo seria usado como munição pela extrema direita num ano eleitoral, no qual as pesquisas indicam vitória por margem apertadíssima, contra um adversário disposto a usar todos os meios possíveis — legais ou não — para evitar nova derrota.
E havia uma solução simples, óbvia, prudente:
adiar a homenagem para 2027, um ano não eleitoral, com Lula possivelmente reeleito.
Mas o Brasil político tem um talento especial para transformar festa em risco e alegria em processo.
A ofensiva bolsonarista: 12 ações em 24 horas.
O desfile da Acadêmicos de Niterói desencadeou uma reação fulminante — e desesperada — da oposição bolsonarista. Segundo a CNN, em apenas um dia, parlamentares e partidos anunciaram ao menos 12 medidas judiciais para tentar barrar, censurar, criminalizar ou transformar o desfile em munição eleitoral contra Lula.
A velocidade das ações não foi coincidência. Foi estratégia.
Foi cálculo.
Foi pânico político disfarçado de “defesa da lei”.
O InfoMoney destacou que o desfile ganhou enorme repercussão digital, com forte reação da oposição nas redes e pressão para judicializar o episódio. A direita viu a homenagem, sentiu o impacto simbólico e correu para o TSE como quem corre para o pronto-socorro.
Antes mesmo de entrar na avenida, o bolsonarismo tentou impedir o desfile da Acadêmicos de Niterói, via fontes acima de qualquer suspeita:
A ex-assessora de Flávio Bolsonaro, Valdenice Meliga — a Tia Val, que aparece em reportagens policiais e políticas desde 2020, quando foi citada em investigações sobre milícias e movimentações financeiras suspeitas ligadas ao entorno de Flávio Bolsonaro — tentou impedir o desfile na Justiça Federal. Perdeu. O TRF-2 rejeitou o pedido, classificando a tentativa como censura prévia mal disfarçada.
Outra ação, apresentada por Damares Alves e aliados, também caiu por terra. A Justiça Federal extinguiu o processo por falta de fundamento jurídico e por tentar usar ação popular como instrumento de censura carnavalesca.
No TSE, partidos como Novo e Missão tentaram impedir o desfile. Foram derrotados por unanimidade. Os ministros deixaram claro: censura prévia, não. Mas o mérito seria analisado depois — e com lupa.
Como se não bastasse, o bolsonarismo decidiu radicalizar após o desfile e o retumbante sucesso como foi recebido e comemorado pela esquerda. Foi a vez do próprio Flávio Bolsonaro, candidato a suceder o pai, entrar — como era previsível e esperado — com pedido simplesmente para cancelar a candidatura de Lula.
O bolsonarismo não disputa eleições — disputa narrativas. E isso não é novidade.
Lula corre perigo?
Lula já foi multado pelo TSE por propaganda antecipada em eleições passadas. Isso pesa. E pesa ainda mais quando o tribunal deixa claro que está com o microscópio ligado.
O ministro André Mendonça afirmou, ainda na sessão do TSE que julgou os pedidos anteriores ao desfile, que o Carnaval pode confundir “o que é artístico e o que é propaganda eleitoral”, especialmente quando envolve alguém que já declarou ser candidato.
Com a oposição em modo ataque total, o risco político se mistura ao jurídico — e ambos se retroalimentam.
O TSE também tem memória — e jurisprudência.
E ambas dizem que manifestação cultural não é crime eleitoral.
Juristas sérios reforçam isso:
- Fernando Neisser (FGV): não houve ilegalidade.
- Márlon Reis (Ficha Limpa): sem pedido explícito de voto, não há crime.
- André Matheus (UERJ): Carnaval é expressão cultural protegida.
- Rodolfo Prado: sem nexo com o pleito, não há propaganda antecipada.
Para esse grupo, o desfile foi arte — e ponto final. Do outro lado, há quem veja campanha até no som do surdo. A direita vê crime até no brilho do glitter.
- Para advogado André Marsiglia, no entanto, não é bem assim. Ele disse na Jovem Pan que o desfile “Não foi apenas propaganda eleitoral antecipada; foi a mais descarada que já vi, digna de ilustrar manuais de direito eleitoral como exemplo de ilícito”. As redes bolsonaristas repetiram à exaustão a brilhante frase de Marsiglia.
É a velha tática: criminalizar qualquer gesto de afeto ao presidente.
Para a direita, Lula só pode aparecer em público se for para ser atacado.
Quem são os sete ministros do TSE
- Cármen Lúcia — presidente
- Kassio Nunes — vice-presidente
- André Mendonça
- Antonio Carlos Ferreira — corregedor-geral eleitoral
- Ricardo Villas Bôas Cueva
- Floriano de Azevedo Marques
- Estela Aranha
Cada um com sua história, sua formação, sua leitura do direito.
E o leitor sabe muito bem o que isso significa.
O que o TSE pode fazer
Se entender que houve propaganda antecipada: multa, retirada de conteúdo, advertência; se entender que não houve, absolvição, reconhecimento do caráter cultural. O que não está no jogo: inelegibilidade; cassação. Não é esse o tipo de processo — embora a direita sonhe com isso todas as noites. Dormindo ou acordado.
O TSE já puniu Lula. O TSE já absolveu Lula. Juristas veem ilegalidade. Juristas veem apenas arte. Ministros alertaram para riscos. A jurisprudência protege manifestações culturais. E o bolsonarismo tenta transformar o tribunal em palanque, com Flávio Bolsonaro pedindo apenas o cancelamento da candidatura do presidente.
O julgamento será decidido exatamente onde a política brasileira mais gosta de operar: no limite, no fio da navalha, na fronteira instável entre cultura, direito e disputa de poder.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
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Carlos
19 de fevereiro de 2026 2:01 amEste filhote do bozo, envolvido em ilícitos que vão de rachadinhas até compra de mansão subfaturada passando por condecoração a milicianos, só pode ter voto num país com um povo seriamente comprometido mentalmente. Ou de conservadores em conserva, como muito bem retratados no enredo de uma escola (universidade?) do samba, que desceu, como esperado tradicionalmente no sobe num ano e desce no seguinte do Carnaval carioca, desceu, mas entrou para a história.